sexta-feira, fevereiro 09, 2007

O menino de todos.

E novamente o crime bárbaro do momento choca as pessoas e as faz querer ver correr rios de sangue...

Deu até na novela a notícia da morte do pobre menino arrastado por um carro!

Estava pensando em colocar um conto meu pra movimentar isso aqui mas mudei de idéia com o que tenho visto hoje. E pelo que vi um bando de drogados idiotas roubou um carro, terminando por matar o menino que não conseguiu se dessamarrar do cinto à tempo.

Certo, digam que são canalhas, vis ou qualquer coisa assim para acalmarmos os ânimos exaltados pelo fato. Um fato nojento, admito. Mas, como sou um sujeito muito do contra, fico pensando: Porque será que todas as vezes que esse tipo de crime acontece vem um monte de gente falando em redução de maioridade penal e endurecimento do código penal brasileiro?

Aconteceu a mesma coisa quando mataram uma menina que havia viajado escondida com o namorado há alguns anos atrás. Era uma menina muito bonita e nesta época eu estava produzindo uma reportagem na qual uma das suas partes era uma conversa com o diretor do IML(Instituto Médico Legal) de Belo Horizonte. Isso incluindo cenas da geladeira dos defuntos e da sala de autópsia. Enquanto assistia aos VTs - pois não tive coragem de ir à externa - ficava pensando na pobre menina que provavelmente teve seu corpo e o do namorado levados para um lugar parecido, cuja definição é mais do que nojento. Tinha embrulhos no estômago toda vez que pensava nessas coisas. Nesse caso os assassinos também eram menores e drogados e por semanas os jornais e as televisões teceram a ladainha de agora.

Claro, os dois crimes são horríveis, merecem todo o rigor que a lei tem para coisas desse tipo. Agora o que é difícil de engolir é esse clamor por sangue sempre que essas coisas ocorrem. Parece até que estamos na Idade Média!

Pois vamos pensar um pouco: O que se ganharia aumentando a maioridade penal ou mesmo endurecendo o código? Sabe qual é a resposta? Nada, absolutamente nada! Os presídios continuariam tão abarrotados como sempre, cheios de gente que mata e morre por menos que um prato de comida. As casas de recuperação de menores seriam oficializadas como presídios de fato - o que ocorre já extra-oficialmente - onde as leis de sobrevivência não seriam melhores. A justiça continuaria a ser lenta ou até mais lenta. Uma vez que crimes praticados antes por menores iniputáveis passariam a merecer julgamento normal e todas as prerrogativas que a lei exige para sua execução. Enfim, o aparato de repressão continuaria tão obsoleto e corrupto quanto é hoje. Quem sabe até mais, a fim de facilitar a vida de alguns abonados.

Contudo, há ainda as vozes que não se calam. Hoje mesmo vi o senhor Luís Datena, por quem nutro um desprezo infinito, pregando pena de morte para os sujeitos. Pior, conclamanto seus espectadores a comungarem de sua visão de mundo e até participarem de uma enquete na qual perguntava qual a melhor pena para os criminosos; a capital ou perpétua. No momento que eu vi, a primeira opção ganhava disparado.

Essa comoção deve durar pelo menos até a semana que vem, quando as redações encontrarem outro assunto melhor a que se pegar. Talvez algum novo escândalo do governo ou coisa parecida. Mas enquanto esse espetáculo de morbidez continuar dando frutos publicitários não haverão motivos para que o esfriem. E sendo assim, por que não chamarmos juristas e especialistas para discutirmos novas formas de punir! Isso sempre dá audiência!

O ser humano é a única espécie que conheço que gosta de revolver seus próprios cadáveres. Não se contenta em simplesmente deixá-los ali, quietos e dignos enquanto continua seu caminho. Tem que gritar, berrar a morte a todos os cantos. Explicações para esse comportamento existem muitas, como as que existem para explicar as pessoas que gostam dos reality shows, e não é meu intuito falar delas aqui e agora.

O que é triste, talvez até mais triste que a própria selvageria do ato de matar em si, é a selvageria das pessoas que insistem em consumir isso no café da manhã como se fosse o mais requintado dos pratos, degustado com uma paixão desmedida. Nesse ponto os jornalistas e editores poderiam ganhar até um momento de condescendência. Afinal é da natureza humana gostar do horror. Vivemos do horror e nos deleitamos nele. Logo, o crime de se explorar sensassionalisticamente a morte de um pobre menino de seis anos passa até batido. É tudo pela informação. A liberdade de informação. A liberdade de continuarmos a ser um bando de animais selvagens que se compraz em linchar criminosos enquanto não tem coragem de ver o quanto somos idiotas em repetir sempre as mesmas besteiras.

Até o próximo crime.

4 comentários:

Daniel disse...

Foi um dos comentários mais certeiros que já vi em toda minha vida.

jardim_de_pedras disse...

É por essas e outras que prefiro nem assistir televisão.

Mas o poder que ela exerce na opinião pública é admirável. Capaz de chocar a todos quando desejar e também fazê-los esquecer de tudo quando isso for conveniente.

=p

Tio Xavier™ disse...

Essa questão da maioridade penal precisa sair dos momentos de comoção pública e virar assunto sério. Não dá mais para discutir se um jovem de hoje é menos ingênuo que um de há 30 ou 40 anos atrás. E a impunidade, esta sim irmã da liberalidade, precisa acabar. Infelizmente não há receitas nem panacéias para isso.

Gabriela Iscariotes disse...

Concordo com tudo que você disse. O problema não é a diminuição da maioridade penal (porque isso geraria outro problema: pessoas seriam cooptadas pelo tráfico cada vez mais jovens), a impunibilidade tem grande culpa; mas penso que grande parte do problema é cultural mesmo. A própria sociedade prega a lei de Gérson, diz que quem trabalha honestamente é otário e o certo é passar a perna em todo mundo... aí quando acontece uma merda dessas focam no lado errado da questão.

Fiquei comovida com a morte desse menino sim, mas não acho que os caras foram os monstros que pintaram (como se tivessem planejado a crueldade e feito isso por diversão). E o sensacionalismo com que ela foi tratada e a maneira como estão usando isso (pra defender interesses nada nobres) me enoja. No fundo tem gente se lixando pra esse guri.